sábado, 1 de julho de 2017

Autocontrole: a decisão entre um carro popular usado e uma BMW 0 Km



Guilherme Alcântara Ramos
Verônica Bender Haydu



      Você já imaginou o que faria se ganhasse 15 mil reais? Algumas pessoas possivelmente escolheriam comprar um carro popular (usado) ou uma moto, ou pelo menos usar o valor como entrada. Imagino que poucas pessoas guardariam o dinheiro ou investiriam o valor para o futuro. Se você aplicar esse valor no tesouro direto (de acordo com informações de um site de investimentos, verificado no dia 02/04/2017) você poderia resgatar o valor de R$184.350,00 (suficiente para comprar uma BMW 0 Km no valor atual) no ano de 2045. Apesar de a quantia final ser bastante significativa, acredito que poucos leitores tenham pensado na possibilidade de aplicar o dinheiro em longo prazo ao considerar o que poderiam fazer com os 15 mil reais. Porque isso acontece?
       Animais em geral, humanos e não humanos, tendem a escolher consequências mais imediatas, mesmo quando isso significa receber um benefício menor. A preferência por consequências imediatas possivelmente é fruto do processo de seleção natural de comportamentos. Quanto mais os animais demoravam para consumir os alimentos, maiores os riscos envolvidos (Green & Myerson, 1996). Não consumir um alimento que estava disponível, envolvia riscos como: o alimento estragar, ser consumido por outro animal ou, no caso de presas, deslocar-se para uma região mais distante ou tornar-se inacessível. Assim, a preferência por resultados mais imediatos, mesmo quando menores, pode ter sido selecionada pelo seu valor de sobrevivência.
      O padrão de comportamento impulsivo, de baixo autocontrole, pode não ter o mesmo valor de sobrevivência para o homem, e pode ser considerado até um problema. Comprar bens de consumo com o dinheiro disponível produzirá certa satisfação pelo acesso aos bens e decorrências derivadas de sua posse, porém poderá comprometer a qualidade de vida na posteridade. Da mesma forma que exagerar no consumo de doces e alimentos gordurosos, que produzem satisfação imediata ao serem consumidos, poderá aumentar a probabilidade de problemas de saúde no futuro. Nos dois exemplos citados, a escolha pelo resultado imediato acarreta em prováveis resultados não desejáveis no futuro.
     Estudos sobre o comportamento de escolha (autocontrole/impulsividade) visam produzir conhecimento que auxilie as pessoas a tomarem decisões mais adequadas, considerando as possibilidades e os efeitos em curto prazo versus aqueles em longo prazo. Alguns dos resultados encontrados apontam que, por exemplo, o álcool afeta negativamente o autocontrole das pessoas, tornando-as mais impulsivas e propensas a comportamentos de risco (Johnson, Sweeney, Herrmann, & Johnson, 2016), portanto é preferível tomar decisões importantes apenas quando estiver totalmente abstêmio. Ficar na presença daquilo que deseja, como um delicioso hambúrguer, torna mais difícil manter o autocontrole (Grosch & Neuringer, 1981), então é preferível evitar ambientes em que se fique na presença de alimentos proibidos quando se está fazendo uma dieta. Realizar alguma atividade que seja incompatível com o comportamento impulsivo auxilia na manutenção do autocontrole, ou seja, vale a pena ter algum hobby ou passatempo prazeroso para lhe entreter nos momentos que quiser evitar se engajar em algum comportamento não desejado. Assim, antes de tomar uma decisão, considere as decorrências das possibilidades que você dispõe, não tome decisões importantes sob efeito de álcool, evite tomar decisões em um primeiro momento, ainda mais quando estiver na presença daquilo que está considerando adquirir, e pense em atividades alternativas que possa fazer quando precisar manter seu autocontrole. Lembre-se que o autocontrole deve ser desenvolvido, as dicas são apenas para lhe auxiliar nesse caminho.

Referências


Green, L., & Myerson, J. (1996). Exponential Versus Hyperbolic Discounting of Delayed Outcomes: Risk and Waiting Time. American Zoologist, 36(4), 496–505. doi: 10.1093/icb/36.4.496

Grosch, J., & Neuringer, A. (1981). Self-control in pigeons under the Mischel paradigm. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 35(1), 3–21. doi: 10.1901/jeab.1981.35-3

Johnson, P. S., Sweeney, M. M., Herrmann, E. S., & Johnson, M. W. (2016). Alcohol Increases Delay and Probability Discounting of Condom-Protected Sex: A Novel Vector for Alcohol-Related HIV Transmission. Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 40(6), 1339–1350. doi: 10.1111/acer.13079