quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017


Como formar melhores condutores para o trânsito



Glisiane Zolim Canali
Nádia Kienen


Você sabia que o trânsito representa uma das principais causas de morte no mundo? Sendo a principal entre os jovens na faixa etária de 15 a 29 anos? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,25 milhão de pessoas morrem a cada ano no trânsito em todo o mundo (World Health Organization [WHO], 2015). E no Brasil não é diferente! O ano de 2014 contabilizou, em números absolutos, 43780 vítimas fatais no país (Observatório Nacional de Segurança Viária [ONSV], 2016b).  Isso significa que o Brasil tem uma taxa de 21,59 mortos por 100 mil habitantes e, de acordo com a OMS, é o país com maior número de mortes no trânsito por habitante da América do Sul (WHO, 2015). O gasto total com acidentes de trânsito no Brasil ultrapassou o valor de R$ 56 bilhões de reais em 2014 (ONSV, 2016a). Esse elevado número de acidentes de trânsito tem produzido um grande impacto social e econômico para o país.
Embora o Brasil tenha implementado leis para o aumento da segurança e diminuição dos índices de fatalidades relacionadas ao trânsito, isso não tem sido suficiente para conter ou diminuir o número de óbitos. A OMS destaca que a redução dos índices de acidentes se dá com a aplicação das leis e com “mudanças positivas” dos comportamentos da população (WHO, 2015).  Essa mudança de comportamento é essencial, uma vez que 90% dos acidentes de trânsito estão relacionados à falha humana (ONSV, 2015). Visando esse objetivo, o Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) modificou a estrutura do curso para a formação de condutores com o aumento da carga horária de aulas de direção defensiva¹. Entretanto, manteve-se a tendência de crescimento do número de óbitos em acidentes de trânsito.
Investir em propostas que tragam mudanças significativas no comportamento dos indivíduos, comparada a outras intervenções (melhoria de vias públicas e/ou renovação da frota com veículos mais seguros) é, possivelmente, a alternativa que pode trazer melhores resultados, além de ser a mais economicamente viável dadas as condições atuais do país. E se o aumento da carga horária do curso de direção defensiva não tem sido suficiente para diminuir os índices de acidentes de trânsito, cabe o questionamento sobre como estão sendo preparados os novos condutores nos centros de formação. O que está sendo ensinado para eles? Muitas vezes o processo ensino-aprendizagem está focado em “passar conteúdos” para o aprendiz e acaba negligenciando o aspecto mais importante: prepará-lo para lidar com as situações com que se deparará no trânsito em seu cotidiano.
Nesse aspecto, a “Programação de Condições de Desenvolvimento de Comportamentos” (PCDC), uma área que se desenvolveu a partir da Análise Experimental do Comportamento, tem muito a contribuir. Ao atentar para a identificação, caracterização e desenvolvimento dos comportamentos que são esperados do aprendiz, a PCDC permite programar condições propícias para a ocorrência de aprendizagem. Ao ensinar novos comportamentos, no caso, os relacionados à direção defensiva, algumas dúvidas podem surgir, como por exemplo: “quais são os comportamentos que uma pessoa necessita apresentar para que se possa dizer que ela está dirigindo defensivamente? ”. O estudo de Russi (2016) identificou, a partir do Capítulo III do Código de Trânsito Brasileiro (CTB), 415 classes de comportamentos componentes da classe geral “conduzir veículo motorizado”, dentre eles, 182 classes de comportamentos referentes à direção defensiva. Assim, analisar materiais que têm sido usados em centros de formação de condutores parece ser promissor como forma de ampliar a compreensão a respeito de “dirigir defensivamente em vias públicas”, estudo iniciado por Russi. Esses materiais apresentam comportamentos do condutor de veículo automotivo relacionados ao veículo, via de trânsito, ambiente e regras gerais de trânsito. Dessa forma, ao caracterizar quais comportamentos são esperados de um condutor para que ele dirija defensivamente evidencia-se o que o aprendiz necessita aprender no seu processo de formação. Buscando assim, formar condutores mais capazes de promoverem um trânsito mais seguro.

1.Direção Defensiva: “é a forma de dirigir, que permite reconhecer antecipadamente as situações de perigo e prever o que pode acontecer com o motorista, os acompanhantes, o veículo e os outros usuários da via” (DENATRAN, 2005).

Para mais informações, consultar:
DENATRAN. (2005). Direção defensiva: trânsito seguro é um direito de todos. Retirado de http://www.vias-seguras.com/comportamentos/direcao_defensiva_manual_denatran
Kienen, N., Kubo, O. M., & Botomé, S. P. (2013). Ensino programado e programação de condições para o desenvolvimento de comportamentos: alguns aspectos no desenvolvimento de um campo de atuação do psicólogo. Acta Comportamentalia, 21(4), 481–494.
Observatório Nacional de Segurança Viária. (2015). 90% dos acidentes são causados por falhas humanas. Retirado de http://www.onsv.org.br/noticias/90-dos-acidentes-sao-causados-por-falhas-humanas-alerta-observatorio
Observatório Nacional de Segurança Viária. (2016a). Custos dos acidentes. Retirado de http://iris.onsv.org.br/iris-beta/#/stats/profiles/0/cost
Observatório Nacional de Segurança Viária. (2016b). Mortes. Retirado de http://iris.onsv.org.br/iris-beta/#/stats/profiles/0/death
Russi, E. K. (2016). Identificar os comportamentos básicos componentes da classe geral de comportamentos denominada “Conduzir veículo motorizado” conforme o Código de Trânsito Brasileiro. (Dissertação de mestrado não publicada). Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR.
World Health Organization. (2015). Global status report on road safety 2015. Genebra: World Health Organization. Retirado de http://www.who.int/violence_injury_prevention/road_safety_status/2015/en/

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Comportamento de ler com compreensão: estratégias para o seu desenvolvimento



Marcelle Teixeira Bertini
Camila Muchon de Melo
Verônica Bender Haydu

A dificuldade relacionada à leitura com compreensão abrange diversos aspectos do cotidiano das pessoas, tais como aprendizagem de conteúdos escolares, o futuro profissional (escolha da profissão) e o relacionamento interpessoal. Crianças, em idade escolar, que já desenvolveram a capacidade de ler palavras, nem sempre compreendem o conteúdo de frases e textos apresentados pelos professores, dificuldades que extrapolam o ambiente escolar e podem trazem prejuízos. Diante dessa condição, o desenvolvimento de estratégias alternativas de ensino da leitura com compreensão pode ser importante e contribuir para reduzir as dificuldades que os cidadãos possam vir a enfrentar em seu cotidiano.
Embora a leitura com compreensão seja vista por diversos teóricos da aprendizagem como uma habilidade superior a outros comportamentos do homem, para Skinner (1957) ela é considerada comportamento verbal. Portanto, pode ser aprendida pelos mesmos princípios de todo os comportamentos operantes: no contato do indivíduo com o seu ambiente. Skinner apresentou uma taxonomia do comportamento verbal, definindo diversas categorias desse tipo de comportamento, sendo elas o mando, o tato, o ecóico, o intraverbal, o textual e o autoclítico. A aprendizagem de um desses comportamentos não implica, necessariamente, na aprendizagem de outro, conforme apontou o autor. Um exemplo dessa condição fica claro quando uma criança aprende a ler palavras (comportamento verbal textual), porém não consegue compreender o seu significado (leitura com compreensão). Para desenvolver leitura com compreensão, várias estratégias podem ser criadas a partir dos princípios da Análise do Comportamento e, diferente dos métodos tradicionais de ensino, essas estratégias podem ser baseadas nos pressupostos da Tecnologia de Ensino apresentada por Skinner (1968/1972).
No ensino da leitura com compreensão deve-se, de acordo com Skinner (1968/1972), definir inicialmente os comportamentos necessários para a aprendizagem desse repertório e em seguida, arranjar as etapas do programa de ensino, de acordo com o qual: (a) o aprendiz poderá progredir no seu próprio ritmo, sendo possível responder um número necessário de atividades até acertar todas as questões propostas; (b) as etapas do programa deverão ser realizadas em pequenos passos, de forma que a resolução de cada questão esteja interligada com a anterior; (c) as respostas do aprendiz deverão produzir consequências imediatamente, o que permitirá identificar se está agindo de maneira correta ou não; e (d) o programa deve ter propriedades reforçadoras. Esse arranjo de ensino faz com que o aprendiz seja ativo no processo de ensino/aprendizagem, o que contribui para uma aprendizagem efetiva, uma vez que é individualizada.
Visto que o objetivo dos analistas do comportamento é fazer uma ciência que auxilie o indivíduo a interagir de forma produtiva com o seu ambiente, utilizar os pressupostos da Tecnologia de Ensino de Skinner (1968/1972) para o desenvolvimento e a proposição de programas pode ser eficaz e eficiente na aprendizagem da leitura com compreensão. A aquisição desse repertório garante ao sujeito acesso a uma grande variedade de recursos, incluindo melhores empregos e ao conhecimento de informações relevantes para sua vida em sociedade. Portanto, o ensino da leitura com compreensão é de grande relevância social.

Referências

Skiners B.F. (1972). Tecnologia do Ensino. (Rodolpho Azzi, Trad). São Paulo: EPU. (Publicado originalmente em 1968).
Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior, New York: Prentice Hall.